A madeira que nos une
Há memórias que têm uma morada. Outras, tais como as da Rute, tinham rodas, atravessavam quilómetros e seguiam pela noite dentro, na cabine do camião do seu pai, o Casimiro.
Era ali, ao lado dele, que a Rute guardava alguns dos seus momentos mais felizes. No tempo que passavam juntos, na estrada que se abria à frente, no aconchego de uma sande de omelete (aquela que o pai comia sempre antes de ir para casa).
Vinte anos depois, o ritual de trabalho do Sr. Casimiro mantinha-se inalterado, mas a menina que o acompanhava tinha crescido.
A importância de guardar o que é nosso
Foi a Rute quem me pediu este filme.
Queria preservar as memórias daquele lugar onde tinha sido tão feliz: ao lado do pai.
E se por um lado as memórias evocam passado, estas, que seriam criadas, também vislumbravam o futuro. Um dia, quando fosse mãe, queria poder mostrar ao filho uma parte das suas origens. Dar-lhe a conhecer aquelas viagens e o lugar que o avô ocupava na sua história.
Há coisas que contamos de memória. E há outras que desejamos guardar com a voz de quem esteve lá, com os seus gestos, com a presença que uma fotografia apenas nos deixa imaginar.
E assim, eles voltaram juntos à estrada.
Pai e filha fizeram juntos a sua última viagem. E eu estive lá para a contar.
A cabine voltou a ser um lugar partilhado pelos dois. A Rute regressou, já adulta, ao cenário de tantas memórias de infância. O cheiro da madeira recém-cortada evocou os seus sentidos, e o filme nasceu desse reencontro do sentir.
Porque nem sempre sabemos, enquanto os vivemos, quais serão os momentos de que mais vamos sentir falta. Por vezes, só mais tarde percebemos quanto amor havia numa coisa tão simples como acompanhar o nosso pai ao trabalho.
Uma história que atravessou gerações
No momento em que vos escrevo isto,, a Rute já é mãe de dois meninos. E aquele desejo ganhou um lugar na vida da família: poder mostrar-lhes uma parte da infância da mãe, ao lado do avô Casimiro.
O filme guarda essa possibilidade. A de conhecerem os dois juntos, naquela estrada, e de ouvirem uma história que começou muito antes de eles nascerem.
Talvez ainda leve tempo até compreenderem o que significavam aqueles quilómetros ou aquela sande de omelete antes de voltar a casa. Mas a história está guardada. Para a Rute a partilhar com eles, quando e como quiser. E, a seu tempo, que eles a possam contar aos seus filhos, e que lhe falem do seu bisavó Casimito, e do homem incrível que ele era.
Este filme pertence ao legado privado da família. Os fotogramas aqui apresentados dão apenas um breve olhar sobre a história; o filme completo fica reservado à família.
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As fotografias são tesouros, mas um filme captura o que o papel não consegue: o timbre da voz, o brilho nos olhos ao contar uma anedota, o silêncio que diz tudo, o jeito de sorrir. É a afirmação de que cada vida contém uma narrativa que merece ser preservada, honrada e, acima de tudo, celebrada.
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